É estranho voltar aqui depois de tanto tempo, mas eu precisava. Tem coisas que eu só posso dizer aqui, pra você, que me entende, me julga ou me critica, mas sempre com respeito, sempre à distância.
Ele me consome, e é uma vez por semana. Eu me recuso, não me entrego... eu fujo! Não quero nada, eu quero tudo! Só que ele finge que não me vê, abaixa os olhos quando sabe que eu vou passar, não me toca, não responde meus e-mails... mas ele me ouve e é isso que me consome – sua falsa displicência. Estou cansada dele, do seu corpo triangular, das suas calças batidas. Me sinto farta de tanto falatório que não diz nada, dele não saber exatamente o que está fazendo mas continuar mesmo assim. Não suporto mais a farsa dos seus cabelos brancos. E ainda sim passo 4 horas por semana suspirando, como se ele pudesse ser um príncipe encantado um dia. Eu me olho no espelho procurando a mim mesma, porque perto dele eu não me reconheço! Meu rosto cora de raiva, meu coração acelera de ansiedade e eu não me acredito. Como pode haver um sentimento, que não de repulsa, por alguém como ele, que não passa de um homem antiquado, metido a alternativo, a desencanado, a “eu moro sozinho”?
E eu to aqui, 5 da tarde, pensando nele, na roupa que ele não vai notar no nosso próximo encontro, num jeito de conquistar aquele coração duro, aquele olhar distante. Eu estou aqui pensando se um dia eu consigo entender o que ele queria de mim na única tarde em que ele abriu a guarda, em que ele me deixou olhar nos seus olhos. É o meu jeito maternal de querer consertar tudo, sempre, de querer arrancar a fórceps a tristeza que vem dele, a incerteza que vem dele e de mim. A vontade que eu tive ontem de abraça-lo forte e dizer façamos paz, eu substituí por um “eu não te quero” oco e por outros braços de consolo.
|
|
||||
|
||||
![]() | ||||
|
||||